As Reformas do Conde Lippe

 

 

 

 

Enquadramento Histórico

 

A 15 de Agosto de 1761, Carlos III de Espanha e Luís XV de França assinam um tratado, conhecido por “Pacto de Família”. As partes assinantes obrigavam-se a declarar como seus inimigos qualquer potência que se declara inimiga de qualquer uma delas, o que levou, resultado desse tratado, que, Espanha declara guerra à Inglaterra. Certos de que D. José I (rei de Portugal entre 1750-1777 que acabou com a escravatura no nosso país), não aderiria ao tratado, Espanha e França acordaram desde logo em invadirem Portugal.
Portugal ciente da má preparação militar do seu exército, esforça-se para se ajustarem as condições de paz e as divergências entre França e Inglaterra. Um incidente na baía de Lagos veio deitar por terra os esforços da corte Lisboeta.
Uma esquadra Britânica perseguiu, derrotou e tomou como seus prisioneiros uma esquadra Francesa que se refugiara nessa baía. O embaixador Francês protestou junto do governo português contra a acção Britânica, para que libertassem os seus homens. Marquês de Pombal, secretário de estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra, agiu de forma prudente com o governo Inglês, para que estes prestassem algum tipo de satisfação ao governo Francês fazendo-se valer sempre da aliança Luso-Britânica. São apresentadas desculpas por parte do Almirante Inglês mas não satisfizeram uma outra exigência francesa, a de entregar os prisioneiros franceses.
No ano seguinte, a 16 de Março um emissário francês juntamente com o embaixador espanhol em Lisboa, como resultado do tratado assinado a 15 de Agosto de 1761, solicitam a D. José que aderisse ao Pacto de Família e que abandonasse a aliança entre Portugal e Inglaterra, pedindo que se fechassem os portos aos navios Ingleses, quer a navios de comércio quer a navios de guerra, dando o prazo de quatro dias para ser adiantada a resposta portuguesa. O governo Português cumpridor do prazo dado, deu resposta clara e categórica, tal como lhes tinha sido pedido, “que, tendo com a nação Inglesa ligações nunca interrompidas e puramente defensivas, consagradas em numerosos e soleníssimos tratados, e não havendo recebido qualquer ofensa que justificasse a transgressão desses ajustes, Portugal ofenderia a religião, a fidelidade e o decoro se porventura acedesse ao que lhe era proposto”1.
Portugal ainda recebeu uma resposta, a 23 de Abril, onde se dizia que “soldados castelhanos viriam quebrar com as suas baionetas os pulsos do povo Português”2, em resposta e dando término ao debate o rei português responde dizendo que defenderá a sua casa daqueles que nela quiserem entrar sem que sejam bem-vindos.
Por força da recusa Portuguesa as forças espanholas invadiram Portugal a 30 de Abril de 1762 e a 18 de Maio Portugal declarou guerra a Espanha. Os ataques começaram primeiro pela invasão espanhola de Trás-os-Montes, marchando sobre Miranda que foi tomada a 8 de Maio, apoderando-se também de Bragança, Chaves e Torre de Moncorvo. Outras foram também alvo dos ataques mas sem sucesso como Vila Nova de Foscoa ao tentar passar o Douro. Mais tarde invasão Franco-Espanhola na Beira que apanhou desprevenido o governo português.
A situação do exército Português era de uma completa desorganização. O desastre em que a administração militar se encontrava era evidente. Os regimentos encontravam-se incompletos e os depósitos de material de guerra estavam vazios, as fortalezas encontravam-se arruinadas e as fronteiras abertas. A disciplina e instrução militar faltava aos soldados, estes eram miseráveis e mal pagos, e, ou roubavam ou pediam esmola. A incompetência era evidente nos oficiais, muitos deles eram empregados de casas fidalgas, andavam mais preocupados no trabalho do seu amo que os promoveram do que no serviço do quartel ou de campo.
A falta de efectivos e de oficiais fez com que a entrada na guerra se tivesse tornado um objectivo difícil de alcançar.
O exército estava com metade dos efectivos regulamentares, e a preparação para a guerra levou a um esforço de fardamento e armamento a que as estruturas da época não conseguiram fazer face.
D. José Lobo da Silveira, Marechal do exército Português, nomeado Marechal do Exército em Abril de 1762, concentrava o exército em Abrantes tentando recrutá-lo, fardá-lo e organizá-lo. Ao mesmo tempo, marquês do Pombal negociava com o governo Britânico solicitando o envio de tropas para Portugal, mas o embaixador de Portugal em Londres encontrava viva resistência ao pedido de ajuda Português.
Antes de proceder ao envio de qualquer tipo de ajuda o governo de Londres quis informar-se com segurança sobre a acção desenvolvida pelo governo de D. José I nos preparativos da guerra. Para desempenhar tal função envia um antigo embaixador, que já conhecia Portugal, do tempo de D. João V (pai de D. José I), o General Tirawlei, vinha com a função de embaixador e tudo aponta para que viesse com o intuito de comandar as forças inglesas, o que se viesse a verificar levaria a que o general assumisse o comando do exército de campanha conjunto. Mas Marquês do Pombal não se entendeu com este general. O que leva a que as informações transmitidas para Londres fossem péssimas, não passando uma verdadeira imagem da situação enfrentada por Portugal, afirmou que “nada estava preparado para a guerra e que a guerra não passava de uma mistificação”3. Pombal ripostou das afirmações prestadas e o general foi chamado a Inglaterra.
Então governo português solicitou a Inglaterra:
- A escolha de um mestre-de-campo-general, de dois sargentos-mores e de um quartel-mestre-general que fossem dignos da confiança do rei. Escolha deixada inteiramente à disposição de Sua Majestade Britânica;
- O envio de um corpo considerável de cavalaria e de infantaria britânica que pudesse não só reforçar o exército mas também dar o exemplo nas operações militares. A resposta promete então 6ooo homens de infantaria e um regimento de cavalaria ligeira de 500 a 600 cavalos;
- “Artilharia de toda a espécie para o serviço do exército, compreendendo artilharia grossa e balas de canhão. A resposta enumera 40 canhões de balas de 24 libras, 22 balas de 13 a 4 libras para os regimentos e para o parque 12 canhões de bala de 12 libras, seis Maurtzers e 200 000 para cada canhão. Ainda a parte metálica para os carros…”4;
- Todas as provisões de guerra para armar as tropas como fuzis, baionetas e cartucheiras. Ainda carabinas, pistolas, bandoleiras e cartucheiras para a cavalaria. A resposta inglesa é de 20 000 fuzis do mesmo calibre e outras tantas baionetas e cartucheiras. Para a cavalaria estariam disponíveis carabinas e pistolas e cerca de 4800 espadas;
- Tendas para todo o exército tanto para praças como para oficiais;
- Por fim o rei britânico concede ao rei português um subsídio de cerca de 200 000 libras para poder adquirir material que fosse necessário.
O tão importante auxílio por parte de Inglaterra é conseguido, não só ao nível do comando e efectivo mas também ao nível do equipamento das tropas portuguesas.
Mas foi a presença de um General estrangeiro à frente do Exército Português o factor que mais evidenciou a dimensão dessa ajuda, constituindo-se como um ponto importantíssimo para os relatos históricos sobre a organização militar em Portugal.

 

 

Inicio da campanha

 

Á chegada a Portugal, a dimensão da força mobilizável pela coroa portuguesa constituiu um primeiro problema para o Conde Lippe.
Após o terramoto de 1755 o governo português viu-se obrigado a reformar alguns dos seus militares efectivos. A 26 de Setembro de 1762 o mapa da força era de: 1654 oficiais e 13 248 soldados na infantaria, 479 oficiais e 3519 soldados na cavalaria, fazendo um total de 18 900 militares operacionais, 5 meses mais tarde em pleno período critico de operações o efectivo excede, em cada arma, cerca de mil o numero de efectivos do exército em período de paz. A escassez de combatentes era um grande problema que confirmava as queixas de Lippe.
Face a esta situação qualquer plano militar que fosse elaborado apenas poderia ser objectivamente defensivo. Era necessário evitar qualquer tipo de confronto desfavorável utilizando para isso os acidentes no terreno de modo a dificultar as operações adversárias, às praças foi dada a ordem, em caso de confronto, resistirem o mais possível. Tratava-se de uma estratégia de defesa contra a invasão inimiga e não propriamente uma guerra ofensiva na qual se procuraria atacar.
O início da campanha do exército português seria então desastrosa, algumas praças foram ocupadas sem resistência. Ao chegar a Portugal o panorama encontrado pelo Conde Lippe é de três praças rendidas na província de Trás-os-Montes, e na Beira já ocupadas as praças de Castelo Rodrigo, Castelo Bom e Alfaiates sem terem oferecido qualquer tipo de resistência.
A desigualdade entre as forças era bem real, os franco-espanhóis contabilizavam 42 000 homens e 93 canhões e o Conde Lippe apenas dispunha de cerca de 15 000 homens, já com tropas inglesas incluídas. Sendo assim o método adoptado era o de conservar o corpo principal do exército, ocupando posições privilegiada.
O exército invasor orientou os seus objectivos, primeiro, para a ocupação da província de Trás-os-Montes tomando a praça de Chaves, segundo, para o cerco de Almeida com o objectivo de chegar a Coimbra e ao Porto, seguidamente procurando avançar sobre Abrantes e numa fase final, transpor o Tejo de modo a concluir a campanha na província do Alentejo.
O Conde decide então dividir o exército em 5 corpos, posicionando o 1.º em Viseu, comandado pelo Conde de Loudon tendo por missão especial defender as províncias do norte; o 2. ° enviado para Castelo Branco e depois para a Guarda afim de cobrir a Beira Baixa e a Estremadura; o 3.º comandado pelo Conde de Santiago ficou em Abrantes para auxiliar onde fosse preciso; o 4.º comandado pelo coronel Burgoyne com o objectivo de marchar secretamente pelo Alentejo, destruir os depósitos de mantimentos e cortar quanto pudessem as comunicações de Badajoz com o exército que cercava Almeida, o 5.º finalmente, que constituía o grosso do exército, tinha como missão, protegido pelas operações de Burgoyne, penetrar em Espanha e eliminar o exército franco-espanhol da sua base de operações.
Uma condição essencial para o êxito deste plano era que a ocupação de Almeida, apesar de inevitável, fosse a mais demorada possível, e para prevenir esse desastre, o conde de Lippe ordenou ao governador de Almeida que defendesse a praça até à última extremidade. Dispostas assim as coisas, no dia 21 de Agosto pela manhã Burgoyne passou o Tejo em Abrantes, e dirigindo-se secretamente a Castelo de Vide, entrou em Espanha, tomou de surpresa Valência de Alcântara e aprisionou cerca de 6 companhias do regimento de Sevilha. No mesmo dia 24, o grosso do exército pôs-se a caminho, atravessando o Tejo mas ainda as tropas portuguesas estavam a duas jornadas de Espanha, quando chegou a notícia da ocupação de Almeida. Deste modo estava perdido o plano do conde de Lippe, e as forças que estavam no Alentejo corriam o sério risco de se separarem das que ocupavam a Beira Alta e a Beira Baixa, através do rápido avanço do exército adversário. Graças à prudência do Conde isso não aconteceu, pois este serviu-se dos regimentos posicionados em Abrantes para proteger a junção das tropas estacionadas em Viseu com o grosso do exército. Deu então ordem para que a os homens comandados pelo Conde de Santiago se posicionassem nos desfiladeiros entre os rios Zêzere e Tejo e reforçou as tropas comandadas por Burgoyne deixando-as em observação numa posição situada entre Vila Velha e Portalegre e ao mesmo tempo ordenou às tropas estacionadas em Niza prontos para invadir Espanha, para rumarem a Abrantes. O marechal chamou então Burgoyne a Vila Velha e encarregou-o de defender a margem do Tejo, construindo baterias em todos os escarpados das montanhas que por ali orlam o rio e aproveitando o próprio castelo da vila, que apesar de ser um mau recinto, tinha a vantagem de ser de muito difícil acesso. Colocados sérios obstáculos que impediriam o inimigo de marchar para o Alentejo, o Conde de Lippe tratou de defender também os desfiladeiros das montanhas que entre o Zêzere e o Tejo vão ter a Abrantes, mas ao mesmo tempo com certo desejo de que os inimigos desistindo de atravessarem o rio seguissem o caminho desses desfiladeiros onde os homens comandados pelo Conde de Santiago os esperava. O conde Lippe decide então recuar um pouco no terreno posicionando-se em frente a Abrantes. Os inimigos, porém, não se aproveitaram da situação, uma vez que se encontravam em más condições físicas devido ao cansaço. O exército franco-espanhol recebe então ordem para fazer retirar da Beira tudo o que pudesse servir à subsistência e marchas do invasor, e o conde de Lippe para aumentar os embaraços do inimigo, pediu auxílio às tropas comandadas pelo Conde de Loudon e reforçando-se com mais algumas tropas deu-lhe ordem de marchar para Penamacor (conselho do distrito de Castelo Branco) afim de cortar as comunicações aos invasores.
Entretanto o conde de Lippe não cessava de fortificar a sua magnífica posição, de a guarnecer e forne cer com artilharia e de estabelecer comunicações com a margem sul do Tejo, afim de se ligar com o corpo de Burgoyne. Ao mesmo tempo o Outono auxiliava-o, as tempestades haviam começado, o exército espanhol exposto às intempéries da estação com falta de víveres e de comodidades, atacado incessantemente pelos destacamentos portugueses, começou a achar-se em posição muito crítica. Ao saber que o conde de Loudon aparecia no Fundão (conselho do distrito de Castelo Branco), as forças inimigas apercebendo-se de que não podiam tomar Abrantes, recuaram e foram novamente ocupar Castelo Branco com a intenção de emendar o erro que cometeram, e de passar ao Alentejo em vez de prosseguir a invasão pela Beira Baixa. O conde de Lippe pôs-se logo em movimento para dificultar o plano inimigo, mas o mau tempo dificultou a operação e o exército adversário voltou para Espanha.
O conflito estava porém a terminar. A Espanha fora infeliz nas suas tentativas contra Portugal.